Militares dissidentes de Israel enfrentam lei e se recusam a ocupar Palestina
Ana Garralda | El Diario | Jerusalém
Em movimento surgido há mais de 30 anos, oficiais do Exército
israelense que se opõem à ocupação nos territórios palestinos desafiam
lei que prevê até três anos de prisão a objetores de consciência
Aos 38 anos, Avner Wishnitzer é um “refusenik”, palavra de origem russa
adaptada ao hebraico que designa objetores de consciência em Israel.
Cofundador e membro ativo do movimento Combatentes pela Paz, Wishnitzer
fez o serviço militar obrigatório (que dura três anos para os homens e
dois anos para as mulheres) e foi incorporado a uma das unidades de
elite das Forças Armadas israelenses, na qual passou depois para
reservista. Porém alguma coisa mudou para ele em 2004, durante a fase
mais sangrenta da segunda Intifada palestina.
Foi quando decidiu
assinar junto com um grupo de companheiros uma carta pública dirigida ao
então primeiro-ministro, Ariel Sharon, na qual eles se negaram a
continuar servindo nos territórios ocupados. “Não sou contra entrar no
Exército, creio que seja uma instituição necessária, mas me oponho a
continuar ocupando um território que não nos pertence”, pontua
Wishnitzer no bairro Beit Hakerem de Jerusalém.
O Estado de
Israel não reconhece o direito de objeção de consciência por motivos
políticos – quem o faz costuma acabar preso – e apenas exime do serviço
militar a população de origem árabe que consiga comprovar problemas de
saúde. Até o começo deste ano, também estavam isentos os estudantes
ortodoxos em uma yeshivá (escola religiosa), porém uma lei aprovada no
início de 2014 acabou com essa prerrogativa.
“Eu me identifico
totalmente com os 43 oficiais e soldados que enviaram outra carta ao
primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, recusando-se a espionar os
palestinos”, acrescenta em relação à carta pública enviada em setembro
por um grupo de membros da Unidade 8.200, pertencente à Inteligência
Militar do país e dedicada a realizar escutas para coletar informações
sobre habitantes de Cisjordânia, Gaza, Irã e outros países do Oriente
Médio.
“A ocupação já tem quase meio século de existência. Fico
contente de que haja pessoas que continuem se opondo a um sistema que é
antidemocrático e imoral”, continua Avner, referindo-se aos depoimentos
distribuídos na imprensa por alguns signatários da carta. “Se alguém nos
interessava, compilávamos dados sobre sua situação econômica ou seu
estado mental. Então planejávamos que operação poderíamos realizar para
convertê-lo em um colaboracionista”, escreve um deles. “Qualquer
informação que pudesse permitir a extorsão de um indivíduo era
considerada relevante, seja porque ele tinha certa orientação sexual,
era infiel à esposa ou precisava de tratamento médico em Israel ou na
Cisjordânia. Então isso era objeto de chantagem”, escreve outro soldado.
Segundo Wishnitzer, hoje especialista em história do Oriente Médio,
“eles nos fazem acreditar que não temos outra escolha a não ser lutar ou
fazer o que quer que seja para nos defendermos, de forma que quando
acabamos uma guerra – no caso, a recente invasão de Gaza – eles já estão
nos preparando para a próxima”, alfineta.
Nas últimas semanas,
os meios de comunicação israelenses seguem especulando sobre a
possibilidade de uma organização jihadista perpetuar algum ataque desde
as Colinas de Golã, na fronteira com a Síria, ou sobre este ser um bom
momento para as Forças Armadas israelenses lançarem um ataque contra o
grupo libanês Hezbollah. De acordo com Wishnitzer, a esquerda israelense
atravessa uma grande crise em uma sociedade cada vez mais conservadora e
se revela incapaz de dar respostas aos objetivos morais e políticos do
país. “Esta crise da esquerda, porém, não começou com a segunda
Intifada; é muito anterior a ela”, acrescenta.
A carta da Unidade
8.200 representou um novo impulso para antigos ativistas do movimento
de objeção de consciência em Israel. “Trata-se de uma nova geração, e há
mais de uma década nós apoiamos aqueles que se recusam a participar da
ocupação”, explica Chen Alon, um dos fundadores da Ometz Lesarev
(“coragem para recusar”, em hebraico), uma iniciativa surgida em 2002
durante a segunda Intifada e promovida por soldados e oficiais do
Exército. Sua insubordinação lhe custou um mês de cadeia, pouco tempo em
comparação ao ano e meio ou dois anos que passaram atrás das grades os
cerca de 200 dos 650 “refuseniks” que se recusaram a fazer parte das
atividades militares um ano depois, em 2003, segundo relata o ativista.
Entre os objetores de consciência em Israel, existem dois grupos bem
definidos. Por um lado, quem se recusa a se alistar no Exército por
questões de consciência, os chamados shministim, nome em hebraico para
os que cursam o último ano do Ensino Médio, convocados para se alistar
com apenas 16 anos. Estes podem cumprir várias penas que podem chegar
aos três anos que, por lei, dura o serviço militar para os homens. Por
outro lado, há os que já se alistaram e que decidem descumprir ordens de
oficiais superiores, alegando motivos como pacifismo, antimilitarismo,
questões religiosas ou recusa a qualquer atividade relacionada à
ocupação israelense nos territórios palestinos. A este último grupo
pertencem Chen Alon e Avner Wishnitzer.
Alguns são vistos como
traidores por grande parte da sociedade israelense e por quase todo o
establishment político e militar. “A carta contribuiu para a campanha de
deslegitimação e mentiras contra as Forças Armadas e o Estado de
Israel”, comentou o ministro da Defesa, Moshe Yaalón, em relação à carta
da unidade 8.200. O ministro de Assuntos Estratégicos, Yuval Steinitz,
foi mais longe. “Quem organizou e promoveu a carta e esta atitude imoral
deve ir para a cadeia. Se todos agíssemos assim, o Estado de Israel já
teria entrado em colapso”, afirmou há alguns dias.
Chen Alon
comenta as inevitáveis consequências enfrentadas pelos signatários da
última objeção de consciência. “Foram expulsos da unidade, mas não do
Exército. Eles têm informação confidencial muito valiosa, e isso os
protege”, acrescenta o ativista. Alon menciona que muitos dos diretores
das empresas israelenses mais importantes de tecnologia avançada
passaram pela 8.200.
“Quem fez parte dela costuma chamar os
antigos companheiros para novos postos de trabalho. Agora é certo que
eles serão repudiados”, explica este professor universitário, profissão
liberal à qual muitos dos “refuseniks” israelenses acabam se dedicando.
Em alguns casos, eles encontram dificuldades para conseguir trabalho em
outros setores, entre eles o funcionalismo público.
“Sempre
soubemos que pagaríamos um preço por nossa ação, mas sempre pensamos que
valia a pena”, comenta Avner Wishnitzer, acrescentando que sua recusa,
como a dos membros da unidade 8.200, concentra-se nas atividades
dedicadas a manter o controle sobre a Cisjordânia e Gaza, e não contra
outras ameaças regionais.
Sobre este aspecto, Ishai Menuchin, do
Yesh Gvul (“há um limite”, em hebraico), organização de objetores de
consciência mais antiga do país, assinala que há importantes diferenças
entre o que acontecia há 20 ou 30 anos e o que acontece nos dias de
hoje.
“Quando começamos em 1982, aconteceu o massacre de Sabra e
Chatila no Líbano. Fomos 3.500 soldados e nos negamos a participar da
guerra [180 foram presos, entre eles Menachem] e centenas de milhares de
pessoas se deitaram na rua pedindo paz”, comenta Menuchin.
Durante a primeira Intifada, “a cifra foi reduzida a 2.500, e 150
acabaram presos”, acrescenta. “Hoje é mais difícil”, afirma o ativista
que, depois de se recusar a participar na guerra do Líbano, continuou
por duas décadas servindo no Exército. “Antes você podia fazer outras
coisas se continuasse no Exército. Hoje, se você se recusa a participar
da ocupação, é mais complicado, porque há muitos mais recursos e
efetivos que se dedicam a ela”, aponta.
“A sociedade israelense
de antes não é a de agora. Não parece importar-se com a imagem
deteriorada do país, como vimos durante a última ofensiva em Gaza”,
pontua Menuchin. “Estamos próximos de um Estado de apartheid. Na África
do Sul, em certo momento, as pessoas pensaram que não havia esperança
até que um dia houve uma mudança”, comenta o ativista. “Em Israel
acontecerá a mesma coisa, mas será quando a sociedade quiser, ainda que
isso pareça muito longe de acontecer”, finaliza Alon.
Tradução: Mari-Jô Zilveti
Matéria original publicada no El Diario, site de notícias espanhol que cobre política, economia e sociedade.
http://operamundi.uol.com.br/…/militares+dissidentes+de+isr…